28/08/2008 07:30

500 T: Dirty Pretty Things, Primal Scream e Vampire Weekend


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"Romance At Short Notice", Dirty Pretty Things (Mercury)
Carl Barat havia saído na frente do ex-parceiro Pete Doherty na estréia, mas cede o empate neste segundo álbum. Se "Waterloo to Anywhere" goleava com hits ganchudos o pífio "Down in Albion", "Shotter's Nation" bate fácil "Romance At Short Notice". Barat deixou os hits na gaveta e fez um álbum de punk rock and roll sem polimento nem gracejos. Ok, tem baladinha ("The North"), mas o que sobressai é o cansaço de Londres nas letras e os mesmos riffs chupados do Clash nas melodias. Que venha a prorrogação.
Preço em média: R$ 60 (importado)
Nota: 5

- "Waterloo to Anywhere", Dirty Pretty Things, por Marcelo Costa (aqui)
- "Shotter's Nation", Babyshambles, por Marcelo Costa (aqui)

"Beautiful Future", Primal Scream (WEA)
O novo camaleão do rock atende pelo nome de Bobby Gillespie, e lidera o Primal Scream, que acaba de lançar mais um álbum imprevisível. Ok, rock retro com pitadas eletrônicas não é nenhuma novidade, as participações especiais (Lovefoxxx, Linda Thompson e Josh Home) são dispensáveis e só umas três faixas "valem" a audição (a faixa título, o single "Can’t Go Back" – na cola do Klaxons – e a versão de "Over and Over", do Fleetwood Mac), mas Bobby Gillespie merece respeito. Aguardemos o próximo álbum.
Preço em média: R$ 50 (importado)
Nota: 6

- "Riot City Blues", Primal Scream, por Marcelo Costa (aqui)

"Vampire Weekend", Vampire Weekend (XL)
A NME os jogou na capa apontando-os como a "banda norte-americana que os ingleses precisam ouvir", mas não há nada de britânico aqui, e sim guitarrinhas que lembram a fase final do Talking Heads, os álbuns world music de Paul Simon e, pasmen, Paralamas. Os quatro singles – "Mansard Roof", "Oxford Comma", "A-Punk" e "Cape Cod Kwassa Kwassa" – do álbum de estréia desse grupo de Nova York apaixonado pela África poderiam transformar o carnaval baiano numa festa cigana. Todo mundo precisa ouvir! :)
Preço em média: R$ 50 (importado)
Nota: 9



Dirty Pretty Things - Tired Of England



Primal Scream - Can't Go Back



Vampire Weekend - A-Punk


enviada por Mac



26/08/2008 00:18

Disco da semana: "Jukebox", Cat Power


"Jukebox", oitavo álbum da carreira de Chan Marshall, chegou às lojas no final de janeiro deste ano, mas não chamou a minha atenção. O segundo álbum de covers da cantora – o primeiro, "The Covers Record", foi lançado em 2000 – veio na esteira da beleza de "The Greatest", de 2006, e por alguma conjunção cósmica passou pelo meu MP3 Player voando. Em Londres reencontrei o álbum com capinha metalizada semelhante a dos vinis e um CD extra com cinco faixas bônus. Foi ouvir novamente e… me apaixonei.

Tento rememorar os sentimentos de janeiro, mas poucas coisas daquelas audições retornam a minha memória castigada por aventuras e desventuras. Lembro que o disco soava calmo e elegante no começo, momento em que Cat Power usava para ninar seu ouvinte preparando-o para o final, mais denso. Não sei o que foi que me afastou do álbum naquele período, mas devemos sempre testar o limite de nossas primeiras impressões, para o bem e para o mal.

A construção do repertório de "Jukebox" lembra muito o de "The Covers Record": nos dois discos temos canções de Bob Dylan ("Paths of Victory" em um, "I Believe in You" em outro), clássicos incontestes em versões deliciosamente pessoais ("(I Can’t Get No) Satisfaction", dos Stones em um; "New York, New York", famosa com Frank Sinatra e Liza Minelli em outro) ou mesmo revisões próprias ("In This Hole", do álbum "What Would the Community Think?" em um; "Metal Heart", do "Moon Pix", em outro).

Porém, se o modo de escolher o repertório atrai semelhanças, a forma com que Chan Marshall recria as canções é totalmente diferente. Se "The Covers Record" era um trabalho mais intimista, centrado no violão da cantora, "Jukebox" é um trabalho conjunto entre artista e banda, no caso a The Dirty Delta Blues Band (quarteto acrescido de mais cinco nomes em estúdio), grupo que a acompanha desde as gravações de "The Greatest", em Memphis, em 2006.

A diferença do modus operandi faz com que o apelo indie dos primeiros álbuns desapareça cedendo lugar a uma sonoridade classuda que transpira charme, elegância, suingue e romance. "New York, New York", "Lost Someome" (James Brown), "Aretha, Sing One for Me" (George Jackson), "Ramblin’ (Wo)Man" (Hank Williams) e mesmo o blues tradicional "Lord, Help The Poor and Needy" são convites a dança (com uma pessoa qualquer, com o ar ou uma taça de seu alcoólico predileto).

Interessante: Cat Power precisou parar de beber para fazer música para bêbados (de amor, desamor ou álcool, quando não os três ao mesmo tempo). A cantora abandonou os palcos em 2006 com depressão profunda e tendências suicidas devido ao uso excessivo de narcóticos e alcoólicos. Retornou "limpa" e recuperada (após rehab, psiquiatria e doses homeopáticas de Billie Holiday e Joni Mitchell) com "The Greatest", de longe seu melhor álbum.

Esse lado lamacento também marca presença em "Jukebox" rendendo momentos memoráveis como a arrasadora "Metal Heart", que faz a versão anterior soar como demotape; "Don’t Explain" (Billie Holiday), com um piano que parece querer cutucar feridas; como o clima country de "A Woman Left Lonely", de Spooner Oldham que, inclusive, toca piano e órgão na canção que ficou famosa na voz de Janis Joplin; como o blues "Silver Stallion" (Lee Clayton) ou a densa versão de "Blue", de Joni Mitchell.

Bob Dylan é homenageado em dose dupla: com uma revisão de "I Believe In You", do álbum "Slow Train Coming", que surge amparada por uma guitarra limpa e marcante que contagia; e com "Song To Bobby", única faixa inédita do disco, uma declaração de amor recheada de frases como "Eu tinha um passe para o camarim em minhas mãos / Te dar o meu coração era o meu plano" ou "Minha chance / No meio do estádio em Paris, França / Eu posso finalmente te pedir / Para você ser o meu homem / Abril em Paris, eu posso te ver? / Por favor, você pode ser meu homem?".

No disco bônus, mais cinco versões: "I Feel", do grupo de hip hop Hot Boys, surge densa ao piano; "Naked, If I Want To" (Jerry Miller ), aparece numa roupagem muito mais roqueira que a presente no álbum "The Covers Record"; "Breathless", de Nick Cave, ganha um caminhar blues com um guitarrinha apitando nos cinco belos minutos da canção; "Angelitos Negros", famosa na voz de Roberta Flack, são sete minutos de dor de amor em castelhano; e "She’s Got You", de Patsy Cline, encerra em clima de fim de noite.

"Jukebox" bateu na 12ª posição da Billboard com 29 mil cópias vendidas na semana do lançamento nos Estados Unidos, totalizando mais de 100 mil exemplares vendidos em todo o mundo em duas semanas nas lojas. Quando escrevo "todo o mundo", por favor, exclua o Brasil. "Jukebox" – assim como "The Greatest" – não ganhou edição nacional (e os dois discos foram lançados na vizinha Argentina pelo ótimo selo independente Ultrapop), e nem deverá ganhar (vide a competência de nossas gravadoras). Uma pena. Esse é daqueles discos que vale realmente a pena ouvir mais de uma vez.

"Jukebox", Cat Power (Matador)
Preço em média: R$ 50 (importado)
Nota: 9


enviada por Mac



18/08/2008 08:59

Disco da Semana: "O Trovador Solitário", Renato Russo


Ainda hoje, quase no final da primeira década do século XXI, a Legião Urbana é a maior banda de rock deste país. Se é (era) a melhor são outros quinhentos, mas o que importa é que o enorme sucesso conquistado por Renato Russo e companhia nos anos 80 aumentou nos 90, mesmo com álbuns menos "comerciais" e com a morte prematura do vocalista e letrista em 1996, em conseqüência de complicações causadas pela AIDS.

Nos anos 2000, uma série de lançamentos póstumos manteve o culto em alta destacando dois álbuns ao vivo da Legião ("Como É que Se Diz Eu Te Amo", show de 1994, e "As Quatro Estações ao Vivo", 1990) e um álbum de raridades de Renato, "Presente", que compilava versões para "Gente Humilde" (Chico e Vinicius), "Thunder Road" (Bruce), duetos com Erasmo, Leila Pinheiro e Zélia Duncan, além de entrevistas (?).

Diferente de seu predecessor póstumo (que cheirava a picaretagem), "O Trovador Solitário" surge como um resgate histórico que permite diversas avaliações sobre o mito em torno do compositor e sobre o rumo de sua banda. Lançado pelo selo Discobertas, do jornalista e pesquisador Marcelo Fróes, o CD reúne material resgatado de fitas K7 do início dos anos 80 com encarte recheado de desenhos feitos pelo próprio Renato.

A rigor, as onze canções contidas no lançamento já circulavam de mãos em mãos de fãs desde os anos 80, quando álbuns como "Dois" (1986), "Que País é Este?" (1987) e "As Quatro Estações" (1989) tomaram as paradas de sucesso (e os acampamentos) e tocaram, tocaram, tocaram, tocaram, tocaram e tocaram. E tocaram. Tocaram tanto que causaram a síndrome de náusea característica daquilo que ultrapassa nossos limites.

Gravada em seu próprio quarto, em 1982, a fita K7 flagrava a fase solo do cantor conhecida pelo nome que dá titulo ao lançamento (pós Aborto Elétrico, pré Legião). O que impressiona, porém, não é a baixa qualidade da gravação, mas o quanto aquele grupo de canções já exibia corpo, tronco e membros completamente definidos, e praticamente não mudaram quando registradas nos estúdios da gravadora EMI, nos anos posteriores.

Renato "inventa" uma Rádio Brasília e com seu "violão desafinado" apresenta "Eu Sei", "Geração Coca-Cola", "Faroeste Caboclo", "Veraneio Vascaína" (gravada pelo Capital Inicial em 1986) e "Que Pais É Este?" em versões exatamente iguais às popularizadas nas FMs de todo o país anos depois, só que gravadas em um toca-fitas simples num quartinho solitário de um Brasil que ainda vivia sob o comando dos militares.

"Eduardo e Mônica" segue idêntica (melodia e letra) até seu trecho final, quando Renato canta: "Eduardo e Mônica então decidiram se casar / um casamento indiano em algum lugar perto do mar / "O mar tá muito longe", um deles lembrou / "Vai ser aqui mesmo", e assim ficou / Foram pra Bahia e hoje Eduardo foi parar lá no Banco Central / Cristalina, Sampaio, Rio de Janeiro / E a Mônica dá aulas na escola normal / Eduardo e Mônica estão no Lago Norte / Ele projetou a casa e ajudou na construção / Só que nessas férias não vão viajar / Porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação".

A fita ainda trazia versões para "Dado Viciado" (que Renato tentou gravar posteriormente, e acabou entrando no póstumo "Uma Outra Estação" em versão voz e violão – semelhante a de "O Trovador Solitário"), "Boomerang Blues" (gravada pelo Barão Vermelho e registrada em outra versão no póstumo "Presente"), "Anúncio de Refrigerante" (gravada pelo Capital Inicial no álbum "MTV Aborto Elétrico") e "Marcianos Invadem a Terra" (gravada no álbum solo de Dinho Ouro Preto e no póstumo "Uma Outra Estação" em versão voz e violão das sessões do álbum "Dois"). De extra, "Summertime" ao lado de Cida Moreira, em 1984.

Renato Russo ficou à frente da banda comandando-a com pulso forte até 1991, época em que Dado começou a assumir os rumos musicais do então trio (o que ficou evidenciado nos dois lançamentos seguintes, os ótimos "O Descobrimento do Brasil", de 1993, e principalmente "A Tempestade ou O Livro dos Dias", de 1996). Até ali, tudo que a Legião fez (e copiou dos Smiths e do U2 – sem ranço, por favor) são mérito e culpa do vocalista. Ok, você já sabia disso, mas "O Trovador Solitário" está ai para lembrar aqueles que esqueceram. São muitos...

"O Trovador Solitário", Renato Russo (Discobertas)
Preço em média: R$ 20
Nota: 9



enviada por Mac



16/08/2008 19:59

Josh Rouse ao vivo em São Paulo


Se o consumismo não fosse tão forte, se não existissem paradas do sucesso, jabaculés e afins, se o que importasse no mundo fosse o simples prazer pelo prazer (e não por modismos, vícios ou enganos), Josh Rouse seria um cara muito mais reconhecido. O músico norte-americano, após um auto-exílio na Espanha, prepara sua volta aos Estados Unidos enquanto coloca na web e nas lojas discos cujo cerne é a simplicidade das boas canções.

Em São Paulo, Josh tocou para uma platéia animada que não esgotou os ingressos do teatro do Sesc Vila Mariana (era possível comprar na porta minutos antes do show), mas que conhecia – e bem – o repertório do show, mesmo com seus últimos álbuns inéditos no Brasil. "Vocês compraram pela internet, não é mesmo?", brincou o músico em certo momento da apresentação, concentrada em material de seus últimos quatro álbuns ("1972", "Nashville", "Subtitulo" e "Country Mouse, City House").

O bonito "Subtitulo" (2006), primeiro álbum gravado por Josh na Espanha, foi responsável por abrir a noite com as encantadoras "His Majesty Rides", "It Looks Like Love" e "Summertime", em versões superiores ao álbum (mesmo com o cantor esquecendo um trecho da letra da última). Do álbum ainda marcaram presença "Givin’ It Up" e a belíssima "Quiet Town".

Seu disco mais recente, "Country Mouse, City House" (2007), foi representado apenas por três canções: a fofa "Sweetie", a jazzy "Pilgrim" e o rock "Hollywood Bass Player", em versão urgente. Vestido de jeans, tênis e blazer e alternando-se entre a guitarra acústica e o violão, Josh confessou paixão pela música brasileira, mesmo sem entender a língua: "Como vocês devem ter lido nos jornais, sou fã de música brasileira. Não entendo o que eles dizem, mas tudo soa tão bem. Não é isso o que importa?".

O show foi estrategicamente dividido em blocos que procuravam representar algum de seus últimos (quatro) álbuns, ignorando totalmente os três primeiros. Desta forma, "Comeback (Light Therapy)" e "Love Vibration", ambas do ótimo "1972″ (2003) chegaram no meio da apresentação para dar um toque mais suingante para a noite (com detalhe para a slide guitar de Mike Cruz – que também tocou teclados - e a linha de baixo marcante de Haggerty).

A parte final foi inteiramente dedicada ao álbum "Nashville", um dos discos favoritos dos fãs. "Winter in The Hamptons", "Carolina", "Streetlights", "Why Won’t You Tell Me?" e "It’s The Nighttime" fecharam o show contagiando o público. Para o bis,"Slaveship" (do "1972"), "Sad Eyes" (outra pérola do "Nashville") e "Directions" (a pedido do público), única concessão do músico a material antigo, neste caso do álbum "Home" (e também da trilha sonora do filme "Vanilla Sky"), de 2000, lançado no Brasil pela Trama. Um belo show.

- "Directions" ao vivo no Sesc Vila Mariana, por Marcelo Costa (aqui)
- "Country Mouse, City House", de Josh Rouse, por Marcelo Costa (aqui)



Fotos: 1) Mac 2) Lili Callegari

enviada por Mac



01/07/2008 08:56

Férias, férias e férias

Essa coluna entra em recesso a partir de hoje, 01 de julho, até 11 de agosto, por férias. A Revoluttion estará em terras européias assistindo a shows de R.E.M., Radiohead, Neil Young, Raconteurs, Leonard Cohen, Lou Reed, Tom Waits, Spiritualized, My Bloody Valentine e Morrissey, entre outros. Acompanhe o diário da viagem pelo Scream & Yell


enviada por Mac



25/06/2008 09:30

500 Toques: Elton John, Amy Winehouse e Mogwai


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"Tumbleweed Connection – Deluxe Edition", Elton John (Comercial)
O terceiro disco de Elton John é um álbum conceitual focado no velho oeste e um dos pontos luminosos da fase clássica do cantor. Esta edição luxuosa traz 13 faixas bônus entre versões demo (Elton sozinho no piano) e canções ao vivo. "There Goes A Well Known Gun" (versão um tiquinho mais roqueira que "Ballad of A Well Known Gun"), "Madman Across The Water" (com Mick Ronson na guitarra) e a baladaça "My Father’s Gun", que Cameron Crowe colocou no filme "Elizabethtown", ao vivo na BBC, brilham.
Preço em média: R$ 80 (importado)
Nota: 9

"Frank – Super Special Edition", Amy Winehouse (Universal)
A mina ainda nem bateu as botas, e da-lhe raspa do baú. "Back To Black", segundo álbum, já virou edição especial com oito faixas bônus. Agora é a vez da estréia retornar ao mercado recauchutada: capa caprichada, encarte livreto e 18 faixas bônus entre demos, b-sides, versões ao vivo e remixes totalizando 30 músicas. "Stronger Than Me" (no Jools Holland) e versões curiosas para "Someone to Watch Over Me" (Gershwin) e "Round Midnight" (Thelonius Monk) valem o investimento, mas só para completistas.
Preço em média: R$ 80 (importado)
Nota: 7

"Young Team – Special Edition", Mogwai (Phantom Sound & Vision)
Se Beethoven tivesse nascido na Escócia em 1980, é bem provável que ele tocasse no Mogwai, quinteto escocês especialista em sinfonias de guitarra que, ouvidas no volume certo, podem acordar uma cidade e te levar aos céus. "Young Team", a estréia do grupo em 1997, retorna em edição especial com nove faixas bônus, entre elas, "Like Herold", no T In The Park de 1997, "Summer", em uma session de rádio, e o hino "Mogwai Fear Satan" ao vivo no 5º aniversário da gravadora Chemikal Underground. Devastador.
Preço em média: R$ 50 (importado)
Nota: 9


enviada por Mac



23/06/2008 11:07

Disco da Semana: "Pilgrim Road", Willard Grant Conspiracy


Após a tempestade sônica "Let It Roll", de 2006, Robert Fisher retorna ao lirismo com seu Willard Grant Conspiracy neste "Pilgrim Road", sétimo álbum de Fisher, parceria do compositor norte-americano com o músico escocês Malcolm Lindsay, mas que conta com o séqüito de colaboradores que sempre marca presença em um novo álbum do projeto.

"Pilgrim Road" ignora a demência de "Let It Roll" para dar as mãos com "Regard The End", de 2003 na sonoridade sombria e na temática religiosa. A voz de Fisher volta a lembrar Nick Cave (a associação é imediata), e canções pungentes como "Lost Hours", ao piano e cordas, poderiam facilmente fazer parte do repertório do bardo australiano, e isso não é demérito.

Robert Fisher trafega entre o alt-country noir e – o que ele mesmo chama de – punk pop folk embora "Pilgrim Road" não traga nada de punk nem de pop, e sim uma sonoridade delicada que versa sobre fé e dúvida. "Lost Hours" toma um caminhoneiro como personagem que divaga sobre o tempo perdido, a saudade de casa e a existência de Deus ("A lua está muito baixa para nos iluminar / O deserto está muito escuro para que possamos observar a noite", canta Fisher).

No gospel "The Great Deceiver", o vocalista pergunta "onde está o salvador?" auxiliado pela cantora Iona McDonald, mas ele não aparece. Na belíssima "Jerusalem Bells", outra movida a piano e cordas, o personagem fala de esperança e sorte, mas pressente que acidentes vão acontecer. "Deus e diabo estão lutando pela minha alma / E ela está cheia de buracos", diz a letra de "Pugilist", outra canção magnífica cujo destaque é o tocante coro vocal.

"Phoebe" fala sobre não encarar a tragédia enquanto "Painter Blue", com tintura renascentista, fala de abandono. "O amor não é verdadeiro", canta Fisher desconsoladamente em "Malpensa", com um bonito solo de violino. O instrumental de "Water And Roses" poderia ninar psicopatas. "Vespers" é o momento da perda da fé. Há, ainda, uma versão para "Miracle On 8th Street", do American Music Club.

Mais de 20 músicos colaboram com Robert Fisher em "Pilgrim Road", e chega a impressionar como o músico consegue dar unidade ao som do grupo. Violino, violoncelo e órgão dançam de mãos dadas em noites escuras com guitarras, baixo e violões criando uma sonoridade perfeita para embalar temas de vida e morte, enganos e salvação, brigas e oração. Um disco bonito para se ouvir em silêncio, meditando.

"Pilgrim Road", Willard Grant Conspiracy (Loose)
Preço em media: $50 (importado)
Nota: 8,5

Leia também:
Let It Roll, Willard Grant Conspiracy, por Marcelo Costa (aqui)

Link:
My Space Willard Grant Conspiracy (aqui)

enviada por Mac



16/06/2008 08:00

Disco da Semana: "Viva La Vida or...", Coldplay


Fragmentos de um texto antigo:

"X&Y" eleva a milésima potência a grandiloqüência exibida em "A Rush of Blood to the Head"

"A banda continua na árdua caminhada para se transformar no novo U2".

"Copiando o U2, o Coldplay está mais para um Simple Minds".

"O Coldplay pinta ser a grande banda da década, porém, ainda deve um grande álbum aos críticos".

"Chris Martin precisa aprender a cantar sem chorar"

"Algum produtor fodaço (como Daniel Lanois e Brian Eno) precisa mostrar para os músicos que não existem apenas teclados, pianos e sintetizadores no mundo".


Resenha de "X&Y" datada de 13 de julho 2005 (a integra está aqui).

Três anos se passaram desde o texto acima. Neste meio tempo, o Coldplay baixou na América latina para uma mini-turnê, o vocalista enfezadinho abandonou jornalistas em uma entrevista coletiva de imprensa em São Paulo e mais de 350 comentários superlotaram uma coluna que escrevi em março de 2007 sarreando Chris Martin (incrivelmente, 50% querendo o meu pescoço, 50% me elogiando - e eu achei que fosse ser linchado em praça pública sem nenhum amigo para me dar a mão). Ah, e o Coldplay chamou Brian Eno para produzir o seu novo disco...

Brian Eno dividiu os trabalhos com Markus Dravs – recomendado por Win Butler, do Arcade Fire, após ter assinado a produção do maravilhoso "Neon Bible" – e chegou chutando a porta da lojinha Coldplay no geral, e de Chris Martin em particular, falando tudo aquilo que a gente já sabia: "Suas canções são longas demais. Você é muito repetitivo, e usa excessivamente os mesmos truques – e coisas grandes não são necessariamente boas. Você recorre demais aos mesmos sons, e suas letras não são boas o suficiente" (contou o vocalista em entrevista a Rolling Stone norte-americana).

Após uma estréia bonita e inocente, um segundo disco mediano e um terceiro álbum grandiloqüente e decepcionante, o Coldplay chega ao quarto disco assumindo os próprios erros e com desejo de traçar caminhos novos. "Viva la Vida or Death and All His Friends", resultado do encontro da banda com Eno e Dravs, chega a surpreender pela forma radical com que a banda nega o passado e se prepara para o futuro. Domados pelas mãos sábias da dupla de produtores, o quarteto britânico coloca nas ruas o seu melhor disco.

Além de ser um comparativo de sucesso, o U2 passa agora a ser uma inspiração para Chris Martin, que graças aos céus deixou de cantar em falsete (ele usa o expediente em poucos segundos da gravação), mas investe nos berros a la Bono. O som da guitarra que havia sido aposentado em "X&Y" retorna forte e lembrando em muitos momentos os harmônicos de The Edge. E até órgãos de igreja entraram no álbum (da mesma forma que entraram em "Joshua Tree", segundo álbum produzido por Eno – e Daniel Lanois – para o U2).

A influência descarada, no entanto, não faz de "Viva la Vida" um pastiche, muito pela qualidade – tanto musical quanto temática – do repertório. Chris Martin voltou no tempo e de lá trouxe boas histórias para suas letras antes romanticamente – corretas e – monotemáticas. "Cemeteries Of London" fala sobre cavaleiros que cavalgam até o amanhecer e enfrentam bruxas e fantasmas. "42" cita feitiçaria. "Yes" é sobre ceder à tentação. Em "Viva La Vida", o vocalista ouve os sinos de Jerusalém e acredita que São Pedro irá chamar seu nome. "Violet Hill" relembra um tempo em que padres também seguravam rifles.

Musicalmente, Brian Eno enxugou os arranjos e deu personalidade aos sons de teclados (que fizeram muito mal aos repertórios de "A Rush of Blood to the Head" e, principalmente, "X&Y") criando uma sonoridade com um pé no rock progressivo, mas sem cair na vala insuportável da grandiloqüência. Outra boa nova é o resgate do som da guitarra de Jon Buckland (que enriquece faixas como "Violet Hill", "Cemeteries Of London" e "Strawberry Swing"). Boa parte do repertório de "Viva la Vida or Death and All His Friends" soa grandioso e delicadamente bonito como poucas vezes o Coldplay conseguiu ser em seus dez anos de carreira.

A instrumental "Life in Technicolor" abre o álbum com som de órgão de igreja e é impossível não fazer um paralelo com "Where The Streets Have No Name", faixa que abre "Joshua Tree", do U2 (os vocais de Chris Martin ao fundo poderiam ser de Bono, se não forem – brincadeirinha). "Cemeteries Of London" traz Martin gastando voz sob uma cama de órgão, teclado, violão e guitarra. O órgão de igreja retorna no arranjo mantrico de "Lost" (uma das grandes letras do álbum). "42", a melhor música, mostra o quanto a banda cresceu melodicamente: começa vagarosa e bonita a la Keane e depois se transforma em Radiohead. O arranjo de "Yes" também surpreende, com Martin cantando pausadamente sobre uma boa estrutura melódica que inclui cordas no meio da canção.

As guitarras dão a cara de verdade em "Chinese Sleep Chant", faixa escondida que começa ao final de "Yes" e faz a cama para a belíssima melodia de "Viva La Vida", com arranjo de cordas e sons de órgão e teclados vindos do céu. "Eu costumava controlar o mundo / Os oceanos aumentavam quando eu dava a palavra / E agora pela manhã eu me arrasto sozinho", canta Chris no começo da canção. "Violet Hill" é o mais próximo que o Coldplay já chegou dos Beatles (sonoramente e geograficamente: Violet Hill é uma rua paralela a Abbey Road). "Strawberry Swing" tem clima cigano, e poderia ser o final conceitual do disco, já que "Death and All His Friends" e "The Escapist" (outra faixa escondida, esta com o mesmo órgão que abre o álbum) são o mais próximo que o velho Coldplay aproxima-se do novo.

Mais do que ser um grande disco, "Viva la Vida or Death and All His Friends" coloca em primeiro plano a função do produtor. O que o lançamento sugere é que qualquer bandeca mediana pode lançar um grande álbum se estiver devidamente assessorada. É quase isso, e não é vergonha nem demérito. O que seriam dos Beatles sem George Martin? Possivelmente uma grande banda, mas será que chegariam no lugar em que chegaram? Ok, não há como comparar Chris com Lennon e McCartney, mas "Viva la Vida" coloca definitivamente o Coldplay no rol das grandes bandas dos anos 00. Chris Martin continua sendo um mala de marca maior (os recentes casos de abandono de entrevista, de recusa a lançar uma música por ser sexy demais e o risco de cancelar a turnê por um acidente no ensaio – isso mesmo, ensaio – só confirmam sua postura coxinha), mas já pode dormir tranqüilo: o Coldplay lançou um grande disco. Agora ele só precisa de um assessor para cuidar de sua vida pessoal, mas uma coisa de cada vez, não é mesmo.

"Viva la Vida or Death and All His Friends", Coldplay (EMI)
Preço em media: R$ 30
Nota: 8,5

enviada por Mac






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Marcelo Costa é editor de homes dos sites iG, iBest e BrTurbo, editor do site Scream & Yell, e escreve sobre música, cinema e cultura pop. A Revoluttion é atualizada às segundas (Disco da Semana), quartas (500 Toques) e sextas (coluna), com fé. :)



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500 TOQUES
Falcatrua, Surfadelica e Wander Wildner
Joy Division, Radiohead e Mundo Livre S/A
Death Cab For Cutie, Black Keys, Wedding Present
Rockassetes, Radiotape e o Frevo do Mundo
Scarlett Johansson, Nico e Madonna
Mystery Jets, Supergrass e Breeders
Júpiter Maçã, Aerocirco e Beto Só
Jools Holland, Elvis Costello e Whiskeytown
Wilco, Marah e um tributo a Neil Young
Bazar Pamplona, Turbo Trio e Wonkavision
Lloyd Cole At The BBC
American Music Club, The Long Blondes e Be Your Own Pet
Boy Kill Boy, Forward Russia e We Are Scientists
Tributo ao Pink Floyd, Juno e Brazuca
Beck, The Cardigans e Led Zeppelin
Wedding Present, The Good, The Bad and Queen, White Stripes
Senador Medinha, Nevilton e os Gianoukas Papoulas
Jens Lekman, Suzanne Vega e Damon and Naomi
Dig For Fire, High School Reunion, Radio One 67
Ryan Adams, The Sea and The Cake e Iron and Wine
Neil Young, Frank Black, Robert Plant e Alison Krauss
Lestics, Surfadelica, Narciso Nada
Britney Spears, Emma Pollock e Siouxsie
Itinerante Magazine, Rogério Skylab, Gardenais
Kurt Cobain, Ian Curtis e Joe Strummer
Twilight Singers, Foo Fighters e White Stripes
Tributos ao R.E.M., Beatles e coletânea latina
Carla Bruni, Dean & Britta e Kristin Hersh
Paula Toller, George Israel e Maria Rita
Stereo Total, The Autumn Defense e Rilo Kiley
Chico Buarque, Superguidis e Engenheiros
Ash, Idlewild e Gruff Rhys
Saturday Sessions, Colours Are Brighter, Daniel Johnston
Bonde do Rolê, Lucy and The Popsonics e Ludov
Air, Devastations e Black Francis
Chemical Brothers, QOTSA e Bloc Party

DISCO DA SEMANA
09/06 Elvis Costello
04/06 Weezer
26/05 The Kooks
19/05 OAEOZ
13/05 Spiritualized
06/05 Nick Cave
07/04 Rolling Stones
31/03 Raconteurs
24/03 R.E.M.
10/03 Billy Bragg
27/02 Tom Bloch
18/02 Morrissey
11/02 Wado
28/01 Jonas Sá
21/01 Sons and Daughters
08/01 John Fahey
03/01 Of Montreal
17/12 Fernanda Takai
03/12 Soulsavers
26/11 Traveling Wilburys
19/11 PJ Harvey
12/11 R.E.M.
05/11 I'm Not There
22/10 Beirut
15/10 Radiohead
08/10 Babyshambles
01/10 China
24/09 Bruce Springsteen
17/09 Eddie Vedder
10/09 Pato Fu
03/09 Josh Rouse
27/08 Fino Coletivo
20/08 Vanguart
13/08 Electrafixion
06/08 Superguidis
30/07 Canastra
25/06 OAEOZ
19/06 Love Hurts
11/06 Leonard Cohen
04/06 Violins
28/05 BRMC
21/05 Autoramas
14/05 Pato Fu
30/04 Charme Chulo
23/04 Los Porongas
16/04 Cartola
09/04 Eu Não Sou Cachorro, Mesmo
02/04 Nick Cave
26/03 Rubin
19/03 Maria Antonieta
12/03 The Stooges
05/03 Bloc Party
26/02 Brinde
12/02 Graforréia
05/02 Los Diaños
29/01 Lasciva Lula
22/01 Elis Regina
15/01 Willard Grant Conspiracy
08/01 Romulo Fróes
25/12 Papai Noel Chegou
18/12 Rapture
11/12 Morning Runner
04/12 Van Morrison
27/11 Continental Combo
20/11 Pet Sounds Tribute
13/11 Morrissey
06/11 Eskobar
30/10 The Elected
23/10 Leoni
16/10 Decemberists
09/10 Roddy Woomble
02/10 Los Pirata
25/09 Prot(o)
18/09 Caetano Veloso
11/09 Dirty Pretty Things
04/09 Later... With Jools Holland... Mellow
28/08 Boy Kill Boy
21/08 Twilight Singers
10/08 Josh Rouse

COLUNAS
Virada Cultural 2008
A Nuvem Nove
CDs ou MP3?
Bob Dylan em SP
Grito Rock: Entrevista com Pablo Capilé
Top Seven S&Y 2007
Nokia Trends
Dez Shows Nacionais
Dez Shows Internacionais
Lestics
CSS, Rapture e Devo
Tim Festival SP 07
Radiohead
CD Music Pac
Gastão Moreira
Smashing Pumpkins
White Stripes
Iron Maiden
O preço dos CDs
Vanguart e João Ricardo
Manics
Virada Cultural 2007
Wilco
Arctic Monkeys
Kind of Blue
Fitas K7
Arcade Fire
Chris Martin
Heart of Gold
Klaxons
Sete bandas
O futuro do rock nacional
Top Ten 2007
Os discos mais influentes
Roberto Carlos
Pelvs e Snooze
Mojo Books
Hot Hot Heat, We Are Scientists e Motomix
200 Discos
New Order
Bizz vs Rolling Stone
Patti Smith e Tim Festival
Cohen em SP
Frank Black
Dez mini-entrevistas
Nirvana
Bob Dylan
Plebe Rude
Franz Ferdinand
Wado, Gang of Four, Tortoise, Chico Buarque, Cardigans ao vivo
Tv On The Radio x Dylan
A música no Brasil morreu
James Dean Bradfield
Qual o seu disco preferido dos Beatles?

Top 2008
DISCO NACIONAL
1) 2, Tom Bloch
2) Terceiro Mundo Festivo, Wado
3) Falsas Baladas e Outras Canções de Estrada, OAEOZ
4) À Espera das Nuvens Carregadas, Bazar Pamplona
5) A Redenção dos Corpos, Violins

MÚSICA NACIONAL
1) Fita Bruta, Wado
2) Entre Nós Dois, Tom Bloch
3) Meu Velho Escort, Beto Só
4) O Impar Perfeito, Wonkavision
5) Agora Eu Sou Vilão, Bazar Pamplona

DISCO GRINGO
1) Third, Portishead
2) Accelerate, R.E.M.
3) This Gift, Sons and Daughters
4) Dig Lazarus Dig, Nick Cave And The Bad Seeds
5) Angels of Destruction!, Marah

MÚSICA GRINGA
1) That's How People Grow Up, Morrissey
2) Inflikted, The Cavalera Conspirancy
3) Supernatural Superserious, R.E.M.
4) Gilt Complex, Sons and Daughters
5) The Switch and The Spur, Raconteurs

SHOW NACIONAL
1) Luiz Melodia, Theatro Municipal
2) Fernanda Takai, Sesc Pinheiros
3) Los Porongas, CCSP
4) Orquestra Imperial, na Av. São João
5) Romulo Fróes, Studio SP

SHOW GRINGO
1) Bob Dylan, Via Funchal
2) Jane Birkin, Sesc Pinheiros
3) José González, Sesc Vila Mariana
4) Interpol, Via Funchal


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